SARA ELIZETH DUZAC CARDOSO: UMA VIDA DEDICADA A SERVIR PELA EDUCAÇÃO
Da infância marcada por limites e fé inabalável à liderança educacional na região, Sara transformou adversidades em propósito e fez da Educação sua missão de vida. Por Camilla CompagnoniFotos: Arquivo Pessoal e Monique Fotosul Há histórias que não cabem apenas em cargos, títulos ou datas. Há trajetórias construídas com renúncias silenciosas, fé, disciplina e um […]
Por admin 18/06/2026 - Atualizado em 18/06/2026
Da infância marcada por limites e fé inabalável à liderança educacional na região, Sara transformou adversidades em propósito e fez da Educação sua missão de vida.
Por Camilla Compagnoni
Fotos: Arquivo Pessoal e Monique Fotosul
Há histórias que não cabem apenas em cargos, títulos ou datas. Há trajetórias construídas com renúncias silenciosas, fé, disciplina e um compromisso profundo com os próprios valores. A história de Sara Elizeth Duzac Cardoso é uma delas. Filha de pedreiro e dona de casa, criada em uma pequena casa de madeira no fim da rua, Sara cresceu onde quase tudo era escasso, menos a dignidade. A infância foi simples, mas nunca pequena. Entre oito irmãos, aprendeu cedo que estudar não era apenas uma escolha. Era um caminho possível de transformação.
Em um tempo em que a escola ainda não era direito garantido para todos, mas privilégio de poucos, enfrentou a temida prova de admissão e contou com a fé da igreja que lhe abriu portas. Uma bolsa de estudos tornou possível continuar. O material escolar vinha de longe, enviado dos Estados Unidos, mas a força vinha de dentro: “Eu entendi muito cedo que, se eu não estudasse, a nossa realidade não mudaria”, relembra.
A EDUCAÇÃO COMO ESCOLHA E MISSÃO
Sara queria ser professora. E foi além. Formou-se em História, Arte e Arteterapia e iniciou uma trajetória que atravessaria mais de 50 anos dedicados à educação. Atuou nas redes de ensino privadas e públicas, passando pela Educação Infantil, Educação Básica e também pelo Ensino Superior.
Ao longo das décadas, tornou-se professora, supervisora, vice-diretora, diretora e, posteriormente, coordenadora regional de educação. Em cada etapa assumiu responsabilidades que exigiam mais do que conhecimento técnico. Exigiam liderança, sensibilidade e coragem.
Durante sua trajetória acompanhou importantes transformações educacionais, entre elas a implantação da Lei da Gestão Democrática (Lei 10.576/95), que ampliou a participação da comunidade escolar nas decisões das instituições. Também esteve presente em momentos importantes de ampliação do acesso à educação e de implementação de políticas inclusivas, como a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), que fortaleceu o direito de todos à educação.
Quando assumia uma escola, muitas vezes encontrava estruturas frágeis, recursos escassos e ambientes administrativos complexos. Ainda assim, aceitava o desafio. Organizava equipes, ampliava turmas, estruturava processos e criava redes de apoio.
Mais tarde, foi convidada para atuar na Coordenadoria Regional de Educação, onde passou a acompanhar cinco municípios e cerca de 42 mil alunos. Enfrentou períodos desafiadores, como reorganizações administrativas, informatização do sistema educacional, escassez de professores e os impactos da pandemia. Viajou, articulou equipes, organizou ações de apoio às escolas e mobilizou redes de cuidado para alunos e profissionais. Nunca trabalhou sozinha. Mas afirma que sempre soube liderar: “Eu sei coordenar para a coisa funcionar. Educação não é poder. É serviço.”
ENTRE ESCOLHAS E RENÚNCIAS
Por trás da gestora firme e da líder que organizava escolas inteiras, existe uma mulher que fez escolhas difíceis. Sara criou quatro filhos enquanto construía sua trajetória na educação.
Lucas, o primogênito, hoje vive em São Borja e sustenta sua família com os valores que aprendeu em casa. Thiago seguiu o caminho da docência e tornou-se professor. Albert, analista de sistemas, carrega a intensidade de quem cresceu em um ambiente de responsabilidade e dedicação. E Leslie, jornalista e professora de arte, é também companheira de rotina e presença constante na vida da mãe.
Criou os filhos em diferentes fases da vida e, aos 60 anos, ergueu com esforço próprio a casa que simboliza não apenas estabilidade, mas autonomia conquistada. Hoje, além de mãe, é avó. Amanda, Isabella, Rafael e Leonardo iluminam a fase mais serena de sua vida.
Com o neto mais novo, troca o celular por pranchetas e lápis de cor. Passam horas desenhando, criando e inventando histórias. Para Sara, educar também nasce no vínculo, no tempo compartilhado e na liberdade de imaginar. “Eu não queria filhos perfeitos. Eu queria filhos honestos e comprometidos com seus propósitos.”
Seu maior orgulho não está nos cargos ocupados ou nas gestões conduzidas. Está na coerência. Na mulher que nunca negociou seus princípios. Na mãe que ensinou pelo exemplo. Na avó que agora pode, com mais calma, sentar à mesa e simplesmente desenhar.
A MENINA DA CADEIRA DE BALANÇO
Quando fala da infância, algo muda no olhar de Sara. A firmeza da gestora dá lugar à menina que foi profundamente amada. Entre as memórias que emergiram em um exercício recente de reflexão, uma imagem voltou com nitidez: ela, pequena, sentada em uma cadeira de balanço, o cabelo cuidadosamente arrumado pela mãe. Não havia luxo naquela casa. Mas havia zelo. Havia presença. Havia amor. Brincava na rua com os irmãos, empinava pandorgas, corria pelas esquinas do bairro. Cresceu em meio a histórias familiares que atravessavam fronteiras, com raízes no Uruguai herdadas do pai, e entre mulheres fortes da linhagem materna.
Ao completar 70 anos, a neta mais velha, Amanda, lhe entregou um presente especial: um livro de páginas em branco. Na capa, um convite delicado: “Vó, me conta a sua história?”, da autora Elma Van Vliet. Um espaço para registrar memórias. Sara ainda não abriu o livro, talvez porque escrever a própria vida exija coragem. Mas uma decisão ela já tomou e afirma: “Eu não quero deixar minha história em branco.”
Mais do que listar cargos ou títulos, Sara deseja que as pessoas conheçam sua essência. A menina que estudou porque precisava mudar o destino. Uma mulher que escolheu servir com fé, disciplina e a certeza de que educação transforma não apenas currículos, mas histórias inteiras.
CONTATO
Sara Elizeth Duzac Cardoso
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2429983883703198
Uruguaiana – RS
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