RODOLFO FARINHA: O CORAÇÃO DO PAMPA QUE COZINHA O MUNDO
Entre a brasa da fronteira e a inquietação contemporânea, o chef transforma memória, território e técnica em uma gastronomia com identidade própria. Por Camilla CompagnoniFotos: Monique Fotosul Rodolfo Tavares Farinha aprendeu a cozinhar antes de imaginar que aquilo poderia ser destino. A infância foi marcada por responsabilidade. Enquanto a mãe e o padrasto trabalhavam, era […]
Por admin 20/06/2026 - Atualizado em 20/06/2026
Entre a brasa da fronteira e a inquietação contemporânea, o chef transforma memória, território e técnica em uma gastronomia com identidade própria.
Por Camilla Compagnoni
Fotos: Monique Fotosul
Rodolfo Tavares Farinha aprendeu a cozinhar antes de imaginar que aquilo poderia ser destino. A infância foi marcada por responsabilidade. Enquanto a mãe e o padrasto trabalhavam, era ele quem esquentava o almoço e cuidava da irmã. “A cozinha começou como necessidade, não como sonho”, relembra. No som simples da comida aquecendo, algo começou a se mover. A obrigação virou curiosidade. Foi a mãe quem sugeriu o curso de gastronomia. Uma semana depois, a certeza. “Quando virou escolha, virou paixão.”
Formado pelo Senac e pelo ICIF (Instituto de Culinária Italiana para Estrangeiros) , construiu 27 anos de trajetória marcados por estudo e persistência. O terceiro lugar mundial no preparo de cordeiro no Meatstock 2023 poderia ser ápice, mas para ele, foi degrau. Porque o que o move não é o troféu. É a memória daquele menino que precisava fazer dar certo. “Eu acordo querendo cozinhar melhor do que ontem. Servir melhor do que ontem. Fazer alguém sair da mesa um pouco mais feliz.”
FRONTEIRA COMO ENCONTRO
Radicado em Uruguaiana, Rodolfo encontrou na fronteira mais do que um endereço. Encontrou identidade. “A fronteira nunca foi linha no mapa. É encontro.” Entre Brasil e Argentina, a troca sempre existiu. No fogo, no corte da carne, no sotaque que atravessa o rio. Uma cultura híbrida, viva, que ele reconhece como espelho da própria trajetória. Nada rígido. Tudo em diálogo. “É ser gaúcho, latino e curioso ao mesmo tempo. É não se limitar.”
Depois de buscar referências pelo mundo, Rodolfo percebeu que técnica sem raiz é apenas exercício. O eixo estava na infância, na avó Kika, na comida feita com tempo e intenção. “Eu quase não chegava perto das panelas, mas estava ali, comendo, observando, sentindo.” Hoje, ao criar um prato, o chef começa pela memória. “Mais do que sabor, eu quero provocar sentimento. Quero que a comida abrace.”
No Quintal Mais Você, restaurante administrado por Rodolfo atualmente, essa filosofia se traduz em convivência. Não é palco de estrelismo, mas espaço de afeto. Crianças circulam, conversas se prolongam, o tempo desacelera. A comida não é fim. É ponte. “Se a comida for o motivo do encontro, então a gente cumpriu o nosso papel.”
CHEFS DO MUNDO E A CORAGEM DE EXPANDIR
Ao decidir se estabelecer definitivamente em Uruguaiana, Rodolfo não escolheu o caminho mais fácil. Escolheu o mais verdadeiro. Trocar centros maiores por uma cidade do interior exigia coragem, desapego e fé no próprio propósito. Ele sabia que ali o mercado era diferente, o ritmo era outro. “O momento mais difícil foi a decisão de ficar. E também foi ela que mudou tudo.”
Ficar significava assumir responsabilidade. Não apenas pelo próprio crescimento, mas pelo desenvolvimento de quem caminhava ao seu lado. Viajar para aprender sempre fez parte da sua inquietação. Mas, em determinado momento, percebeu que crescer sozinho seria pequeno demais. Se apenas ele saísse para buscar técnica e repertório, a equipe permaneceria no mesmo ponto. Foi desse movimento que nasceu o Chefs do Mundo. “Eu não vejo limite. Essa inquietação faz parte de quem eu sou como cozinheiro. Trazer coisas novas, tendências, técnicas diferentes e inovação para Uruguaiana sempre foi parte do meu propósito.”
A proposta era importar conhecimento e ampliar horizontes. Grandes nomes da gastronomia aceitaram o convite e atravessaram fronteiras para cozinhar no Quintal, compartilhar técnicas, ensinar processos, trocar visões. “Não era só um evento gastronômico. Era formação. Era desenvolvimento.” Cada edição era mais do que um jantar especial. Era treinamento intensivo. Era mostrar para a própria equipe que o mundo era possível, mesmo a partir da fronteira. Com o tempo, o movimento amadureceu.
E a inquietação mudou de direção. Se já era possível trazer o mundo para Uruguaiana, por que não levar Uruguaiana para o mundo? “A gastronomia pode contar quem nós somos. Em uma cidade como Uruguaiana, que é fronteira, tradição e mistura ao mesmo tempo, a comida tem o poder de organizar essa identidade e mostrar ela com orgulho.”
Assim nasceu o Chefs Sem Fronteiras. Não como ruptura, mas como expansão natural. A mesma cozinha que recebeu passou a viajar. A mesma identidade que dialogou começou a ocupar novos espaços. “Não é substituir o que é nosso. É ampliar.”
ENTRE GESTÃO E LEGADO
A imagem do chef criativo à beira do fogão é apenas parte da história. “Talvez o que ninguém veja é justamente o que a gente menos faz: cozinhar.”, explica Rodolfo. Com o crescimento do negócio, o avental divide espaço com planilhas. Gestão, números, formação de equipe, decisões difíceis. Empreender em gastronomia exige resistência. Jornadas longas, finais de semana trabalhados, datas comemorativas longe da própria mesa. Rodolfo não romantiza. “Se for para fazer, que seja com amor de verdade. Porque é isso que vai sustentar você quando o cansaço bater.” E o que sustenta é o serviço. A casa cheia, a equipe alinhada, os pratos saindo no tempo certo. “Quando tudo encaixa, isso ainda me emociona muito. Ali não é só comida sendo feita. É confiança e construção coletiva.”
Quando perguntado sobre como gostaria de ser lembrado, a resposta desmonta qualquer expectativa grandiosa. “Aquele cara do restaurante em Uruguaiana.” Há uma força silenciosa nessa simplicidade. Talvez seja justamente a ausência de vaidade que sustente o que ele constrói.
Um cozinheiro que começou por necessidade e transformou a brasa da fronteira em linguagem. Um chef que entende que tradição e inovação não competem, brindam juntas. “Não é sobre deixar o meu nome marcado. É sobre deixar a nossa cultura viva em outros lugares.” Ele fala de Pampa, de fronteira, de identidade. Fala de uma cozinha que não quer ser apenas tendência, mas testemunho. Testemunho de um território que se mistura, de um povo que recebe e de uma tradição que pode dialogar com o mundo sem perder o sotaque.
CONTATO
Chef: Rodolfo Tavares Farinha
Instagram: @rodolfofarinha
Quintal Mais Você
quinta à sábado | 19h30 às 22h30
sábado e domingo | das 11h30 às 14h30
Rua treze de maio, 1377
Instagram restaurante: @quintalmaisvoce
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