O CORPO COMO CAMPO DE BATALHA: A IMAGEM COMO REVOLUÇÃO.

O CORPO COMO CAMPO DE BATALHA: A IMAGEM COMO REVOLUÇÃO.

A colaboradora Michele Leguiça traz um relato que conta um pouco da sua história como mulher que venceu as dificuldades impostas pela sociedade e recuperou sua auto estima.

Por Colaboradores 28/09/2020 - Atualizado em 30/10/2020

A história que aqui vou contar – em aliança com as imagens – não é uma história sobre beleza, desejo e prazer, pelo contrário, essa narrativa começa com a falta de desejo, a inexistência prazerosa de fazer o simples ato de olhar-se no espelho. Eu não me queria refletida, não me via de um jeito positivo, bonito. O corpo-mórbido tomou conta de mim e minha existência foi se afunilando…. Neste momento percebo que é chegada a hora de desengavetar alguns sonhos e falar das vezes que tive medo. Pela espada que carregamos na garganta, todos os dias, por sermos mulheres, fronteiriças, mães e constantemente objetificadas. Mas dessa mesma espada, agora empunhada por mim, tomo as rédeas do meu corpo, tornando-o um corpo-território, corpo-força, corpo de mulher.

Tudo inicia com problemas de saúde, que na época foi diagnosticado como anorexia nervosa. Derivada de um acúmulo de desencontros cruciais na vida de uma mulher (acreditava eu naquele momento): minha separação conjugal, que de alguma forma me fazia sentir culpabilidade; a questão de estar doente e não poder dar atenção desejada às minhas filhas. Dentre todos os procedimentos médicos de exames e diagnósticos, a psiquiatria foi a única ciência que conseguiu dizer algo sobre mim. Nenhuma outra especialidade médica conseguiu entender o emagrecimento rápido e constante.

Aceitei o diagnóstico e o longo tratamento, de no mínimo 2 anos. Durante esse período não lembro de quase nada. Se a medicação era forte ou fraca, se tinha gosto ou era insípida, se me fazia bem ou se não tinha afeito….  Nesse tempo deixei de existir! Lembro, como se fosse um sonho – algo descolado da realidade -, minha filha mais velha sentada ao meu lado me observando. Eu sentia sua presença, mas não podia fazer com que ela sentisse a minha. “Inexistente”, era a condição da minha vida.

Meu divórcio aconteceu na metade do tratamento, e eu – ainda doente – custei a entender o que estava acontecendo. Via no olhar dos vizinhos, amigos, familiares algo de temor, medo e, por vezes, pena. 

Assim, entrei na empreitada médica sozinha e sem muitas condições de consultar (a cidade não tinha psiquiatra no SUS) acabei por me inscrever no CAPS. Lá eu fazia psicoterapia – mas não estava funcionando muito – pois continuava muito magra e ainda sem poder olhar no espelho. 

Rumores e piadinhas, cochichos e olhares me diagnosticavam antes mesmo de darem “Bom dia! ”, “Deve ser HIV/Aids! ”, espalhava-se por bocas e ouvidos. Novamente me olhava e não me via, era como se tivessem apagado da minha memória lembranças boas. 

Sem explicações para dar, e muito menos entendimento naquele momento sobre o ocorrido, comecei a aceitar o rótulo de louca e todos os outros problemas que quiseram me atribuir. Assumi a derrota de tudo: da saúde, da maternidade, do casamento.

A INSPIRAÇÃO FOI SENDO DESABROCHADA nos momentos onde tive contato – dentro do componente disciplinar Seminário de Arte como estudante da Unipampa – com as reflexões e produções sobre “corpo estranho” e “corpo loucura”. Nesse espaço e tempo fiz minha arte. Fiz do meu corpo ferramenta de luta, território a ser repensado, ressignificado e conquistado. De alguma forma, acredito no que o filósofo francês, Michel Foucault, disse sobre “onde há poder, haverá resistência” e faço de mim a resistência que procuro. Assim, neste ensaio imagem, busco discutir sobre como os corpos femininos acabam sempre relegados a punição e a disciplina, submetidos a maus-tratos emocionais e a todo o tipo de violência. Utilizando meu corpo e a arte visual como resgate ao me ver de forma íntima, produtora de mim mesma. Escolhi o inverno, o frio enquanto aconchego para me encontrar. 

Procurei o fotógrafo, conhecido na cidade, e ele, primeiramente, pensou que se tratava de um ensaio sensual. Tive algumas conversas com ele, expliquei a questão do cenário, que queria me banhar no campo sem paredes, sem limites, olhar o horizonte e ver o sol, sentir o frio da estação. Compartilhei a dor de não conseguir me ver no espelho pois não me reconhecia, e o intuito do ensaio era como um ponto de partida para uma nova vida, me lavar dos comentários, do preconceito, do fracasso que acreditava ser meu enquanto filha, mãe, irmã e esposa.

Ele me levou em um espaço com uma mangueira (local para colocar o gado) de pedras, consequentemente levantadas por escravizados. Lá, para o lado que olhasse, veria o horizonte sem fim, onde a terra e o céu se encontram. Quando estava naquele espaço tive certeza que era nele meu REENCONTRO.

Após o ensaio, já com as fotos em mãos, cheguei a casa da minha mãe, temerosa do que ela poderia entender sobre as fotos. Ao abrir o álbum minha mãe fitou vagarosamente cada detalhe daquele corpo que ela conhecia tão bem, mas que, por muito tempo, não reconhecia – assim como eu. Olhou, observou e com os olhos emaranhados de lágrimas me disse: “Filha, que bom te ter de volta. Tu retornaste! ”. Quando percebi seus olhos me encontrei no reflexo deles, e naquele momento, gostei do que vi, gostei do que estava vendo através dos olhos de minha mãe. (RE)SURJO… (RE)EXISTO! 

Por Michele Leguiça
Fotos: Reinaldo Alves

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