Infâncias do campo: Descobertas, Brincadeiras e Afeto.
Por Suelen Soterio, professora de Educação Infantil Reflexões sobre a docência e a infância na escola do campo. Ao longo da minha trajetória como educadora, grande parte do meu trabalho foi realizado em escolas da zona urbana, especialmente nas comunidades periféricas. Ali, deparei-me com diferentes realidades — o abandono, a pobreza e a ausência de […]
Por admin 24/10/2025 - Atualizado em 24/10/2025
Por Suelen Soterio, professora de Educação Infantil
Reflexões sobre a docência e a infância na escola do campo.
Ao longo da minha trajetória como educadora, grande parte do meu trabalho foi realizado em escolas da zona urbana, especialmente nas comunidades periféricas. Ali, deparei-me com diferentes realidades — o abandono, a pobreza e a ausência de amparo — e compreendi que, muitas vezes, a escola é o único espaço onde a criança é verdadeiramente vista, ouvida e acolhida. É no ambiente escolar que ela encontra não apenas o conhecimento formal, mas também o olhar atento e o afeto que reafirmam sua importância no mundo.
Com o passar dos anos, recebi a oportunidade de atuar em uma escola localizada no meio rural. Sabia que encontraria uma rotina distinta, marcada pelo ritmo da natureza e pela tranquilidade do campo. Contudo, logo percebi que o contexto rural também apresenta seus desafios — diferentes, mas igualmente profundos e comoventes.
As crianças da escola onde atuo acordam ainda antes do sol nascer. Enfrentam o frio, o vento e, muitas vezes, a chuva para percorrer longos trajetos até o ponto do ônibus escolar. Os caminhos de barro e a distância exigem força e persistência. Mesmo cansadas, chegam com um brilho especial nos olhos: o brilho da curiosidade, da alegria em aprender e do encantamento por estar na escola.
Em sala de aula, cada dia é uma nova descoberta. Através da ludicidade, exploramos o mundo, ampliamos percepções e transformamos o simples em extraordinário. Pintamos, recortamos, colamos, construímos e experimentamos. O protagonismo infantil se revela em cada criação, mostrando que o ato de brincar e criar é, ao mesmo tempo, uma forma de expressão e de fortalecimento pessoal.
Nos momentos de brincadeira, o pátio se transforma em cenário de aventuras, repleto de risadas e histórias. É também o espaço onde as vivências se encontram: ali, as crianças compartilham fragmentos de suas rotinas, suas observações sobre o campo, os animais e a vida em família. O som do vento nos pampas se mistura às vozes infantis, compondo uma sinfonia que celebra a infância em sua essência mais pura.
Ser professora no campo é viver uma troca constante. Cada dia é uma lição de coragem, simplicidade e esperança. As crianças aprendem comigo, mas eu aprendo ainda mais com elas — sobre o valor da vida, sobre o tempo da natureza e sobre a beleza das pequenas conquistas.
Quando o ônibus parte levando meus pequenos de volta para casa, observo o horizonte e sinto que cada manhã fria, cada passo na estrada de chão, vale profundamente a pena.
Entre os pampas e os sonhos, sigo aprendendo — todos os dias — o verdadeiro sentido de ensinar, acolher e transformar.
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